Hoje é o último dia do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo e apesar de estar um pouco decepcionado por não ter comparecido a quase nenhuma sessão, fiquei extremamente satisfeito com um documentário que vi logo no primeiro dia do festival.
“Hiato”, dirigido por Vladimir Seixas, trata de uma manifestação surpreendente ocorrida no Rio de Janeiro em Agosto de 2000. Para muitos, este episódio já não faz parte das lembranças e para tantos outros, ele nunca chegou a existir de fato.
Em uma sexta-feira pela manhã, pouco mais de 100 sem-tetos, sem-terras e moradores de favelas do Rio foram fazer um passeio no Shopping Rio Sul, muito freqüentado pela alta sociedade carioca.
Ainda a caminho da zona sul, os “manifestantes” foram abordados por PMs e, questionados para onde estavam indo, responderam naturalmente que seria um simples passeio no shopping e exigiram os mesmos direitos de qualquer cidadão; o velho e bom “ir e vir”. É irônico imaginar que os policiais, majoritariamente, são também de classes desprivilegiadas e mesmo assim não conseguem se libertar por um só momento das amarras da profissão para serem solidários a seus semelhantes; neste caso, honravam sua missão e tentavam “proteger” uma classe que os despreza e está muito distante de suas realidades.
Quando os dois ônibus repletos de favelados e sem-tetos finalmente chegaram ao luxuoso shopping, seguranças e policiais começaram a se organizar para prevenir algum possível confronto ou atitude vândala. O que se viu foi o extremo oposto; o povo, que nunca havia pisado os pés em um lugar semelhante, comportou-se de maneira mais educada do que os freqüentadores assíduos e resistiram bravamente a todas as provocações.
Lojas foram fechadas e pessoas mesquinhas desdenhavam sem pudor a presença daquele grupo tão grande e imponente. Todavia, a convicção que havia entre os manifestantes de que os direitos devem ser respeitados independentemente de classe ou cor, fez com que todo o grupo não se abalasse e permanecesse tranquilamente durante o dia inteiro no shopping.
Entraram em lojas, admiraram-se nas vitrines, vestiram roupas que sabiam não poder comprar e até lancharam pão com mortadela trazido de casa na praça de alimentação. Enfim, passearam e conheceram de perto um mundo que só haviam visto intermediado por algum meio de comunicação de massa.
Visto por uma ala conservadora, o ato foi nada mais que uma forma de desobediência civil. De qualquer forma, coragem e consciência social fizeram com que todas essas pessoas decidissem mostrar a uma parcela da sociedade que, embora não aparente, existe nos morros gente que sabe o que pensa.

