quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Anselmo era só miséria

Anselmo era só miséria. Assim foi desde sempre; do primeiro grunhido ao último espirro, o pobre homem, quase inseto de tão esquálido, nasceu de um ventre prostituído e morreu sem pai nem puta em uma poltrona acinzentada de tanta tristeza.

Filho da puta sem trocadilho algum, não chegou a conhecer a velha mãe. Pai. Teve dois. Era só miséria. O velho Genésio foi o primeiro. Barbeiro da vila, freqüentador assíduo da casa de mulheres na esquina do único beco da vizinhança, era cliente fiel da profissional mais experiente do ramo e, desiludido da vida após sua concubina ser esfaqueada por um desafeto qualquer, sentiu-se no dever de cuidar do garoto, à época já com uma dúzia de sombrias primaveras completadas.

Sorte ou azar. O fato é que, pouco depois, o menino perdeu o pão e o leite que o barbeiro bêbado prometera no dia em que resolveu abrir as portas de seu casebre. Anselmo, na mais miserável das misérias, voltou às origens. Rua. Beco. Cerca, telhado. Nessa ordem.

Até então, o filho de ninguém – ou de todos – nunca havia passado fome. Arroz, feijão. Músculo de bisteca. Sempre havia alguma alma bondosa que trazia um prato para o pequeno vulto que perambulava pelas ruas. Comida fria. Tanto fazia. Na verdade, Anselmo sequer conheceu um prato quente antes dos quarenta anos, quando, enfim, pôde dividir uma mesa com “colegas” na repartição onde trabalhava. Anselmo era só miséria.

Antes da repartição, do primeiro aluguel e do abandono da mulher, teve outro pai. Dessa vez, interesse em vez de benevolência. O marceneiro, acossado por uma dezena de clientes, precisava de uma mão pra arriscar três ou quatro dedos na serra que estraçalhava os pedaços de pau que mais tarde virariam móveis mal montados e assimétricos. Sorte. Anselmo pulou fora antes que perdesse o pouco que tinha.

Rua. Beco. Cerca. Ia de um lado para o outro nos telhados de zinco, furioso. A vizinhança, em uma mistura de medo, preocupação e curiosidade, conversava pelos cantos e tentava descobrir se o bicho solitário miava ou uivava. Uns juravam ter visto o garoto duelando com gatos e ratazanas maiores que cães. A comida, antes fria, agora se resumia a lixos revirados, destroçados. Só miséria.

O tempo foi passando. A rua e o beco passaram. Anselmo, em uma dessas filas que abraçam quarteirões, conseguiu um emprego. Público. Ganhava miséria. Entre uma condução e outra, conheceu uma mulher também miserável. Anselmo era mais.

Pouco falava. E sentia falta dos ruídos de outrora. Amedrontada pelo funesto marido, Célia partiu, e nunca mais voltou. Mas o eterno filho da puta já não sabia ele próprio se miava ou uivava. Com pouco menos de meio século de vida, desgraçada vida, Anselmo sucumbiu. Ninguém sabe se foi de doença ou de miséria. Acharam-no recostado na gasta poltrona que havia encontrado no velho beco.

Tem gente que ainda diz ouvir os grunhidos e os ruídos dos latões de lixo nas silenciosas madrugadas da vila agora modernizada. Anselmo era só miséria.